


Apesar da pressa característica da crônica, ela é uma somatória de pesquisa, seleção e inspiração. "Embora não tenha preconceitos temáticos, a crônica não aceita qualquer matéria: dentro de seu campo de ação - o acidental (ou circunstancial episódico) captado quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou incidente doméstico - a crônica deve escolher um fato capaz de reunir em si mesmo o disperso conteúdo humano"(1), pois só assim ela pode cumprir o seguinte princípio: informar, ensinar, comover, deleitar.
Existem quatro tentativas de classificar a crônica. Luiz Beltrão usa o critério jornalístico, Afrânio Coutinho toma como base a tipologia literária, Moisés Massaud procura uma correspondência com os gêneros literários e Antonio Cândido guia-se pela estrutura narrativa.
Luiz Beltrão (2) propõe duas classificações: quanto à natureza do tema e quanto ao tratamento.
A partir da natureza do tema, são três espécies:
- Crônica Geral - sob uma forma gráfica determinada ou sob uma epígrafe geral aborda os assuntos mais variados, ocupando espaço fixo no jornal. É chamada coluna ou seção especial.
- Crônica Local - sempre sob a mesma epígrafe em página e coluna fixa, fala da vida cotidiana da cidade, atuando como um tipo de receptor da opinião da comunidade onde se insere o jornal. É chamada urbana ou da cidade.
- Crônica Especializada - integra página ou seção determinada, com apresentação gráfica do texto diferente das demais matérias e focaliza assuntos referentes a um determinado campo específico, como política, esportes, economia etc. Também é conhecida como comentário.
Quanto ao tratamento, surgem três modalidades:
- Analítica - a linguagem é sóbria, elegante e enérgica, os fatos são expostos com brevidade e analisados com objetividade. O cronista dirige-se à inteligência ao invés do coração.
- Sentimental - a linguagem é vivaz de ritmo ágil, os fatos apresentam-se a partir de aspectos pitorescos, líricos, épicos, capazes de comover e influenciar a ação. O cronista apela para a sensibilidade.
- Satírico-Humorística - a linguagem é de duplo sentido com o objetivo de criticar, ridicularizando ou ironizando fato, ações, personagens com a finalidade de advertir e entreter o leitor.
Afrânio Coutinho (3) define cinco tipos de crônicas:
- Crônica Narrativa - estória ou episódio próximo do conto contemporâneo, que não necessita obrigatoriamente de começo, meio e fim ( ex.: Fernando Sabino).
- Crônica Metafísica - são reflexões sobre acontecimentos e pessoas de cunho mais ou menos filosófico (ex.: Carlos Drummond, Machado de Assis).
- Crônica-Poema-em-Prosa - de conteúdo lírico expressa os sentimentos do cronista ante o espetáculo da vida, das paisagens ou episódios significativos (ex.: Ruben Braga, Manoel Bandeira, Raquel de Queiroz).
- Crônica Comentário - crítica de acontecimentos díspares, tomando o aspecto de "bazar asiático" (ex.: Machado de Assis, José de Alencar)
- Crônica Informação - relata os fatos, fazendo ligeiros comentários impessoais (ex.: Lourenço Diaféria, Flávio Rangel).
Moisés Massaud (4) propõe dois tipo de crônica baseado no ponto de vista da ambiguidade do gênero:
- Crônica-Poema - prosa emotiva que chega ao verso (Carlos Drummond).
- Crônica-Conto - o cronista narra um acontecimento que provoca sua atenção como se fosse um conto, sendo ele apenas o estoriador.
Antonio Cândido (5), sem qualquer pretensão de criar categorias, sugere uma classificação destacando diferenças entre os modernos cronistas brasileiros:
- Crônica-Diálogo - o cronista e seu interlocutor se revezam trocando pontos de vista e informações (ex.: Carlos Drummond, Fernando Sabiano).
- Crônica-Narrativa - apresenta alguma estrutura de ficção, semelhante ao conto (ex.: Ruben Braga).
- Crônica Exposição Poética - uma divagação sobre um fato ou personalidade, uma série de associações (ex.: Paulo Mendes Campos).
- Crônica Biográfica Lírica - narrativa poética da vida de alguém (ex.: Paulo Mendes Campos).
"Mas não apenas os teóricos do jornalismo e da literatura se preocuparam em classificar a crônica. Os cronistas também. Numa série de crônicas sobre as "definições da crônica", Luis Fernando Veríssino oferece um esquema classificatório, tomando por ponto de referência a qualidade. Ele divide a crônica em: crônica, croniqueta, cronicão, cronicaço.
Como identificar cada uma? Crônica é qualquer crônica, ou uma crônica qualquer. Croniqueta é o nome científico da crônica curta, como pode parecer. (...) Cronicão é a crônica grande, substanciosa, com parágrafos gordos. (...) Grande crônica é o Cronicaço. O cronicaço é contagiante; seu autor sai na rua e deixa um rastro de cochichos - É ele, é ele!" (6)
1- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, SP, 1985, pág. 22.
2- Beltrão, Luiz. Jornalismo Opinativo. Sulina, Porto Alegre, 1980, pág. 68.
3- Coutinho, Afrânio. Ensaio e Crônica. In: A Literatura no Brasil, vol. VI, Sul Americana, RJ, 2a. ed. 1971.
4- Massaud, Moisés. A Crítica Literária. Melhoramentos, SP, 1979, 9a. ed., pág. 245-258.
5- Cândido, Antonio. A vida ao rés-do-chão. In: Para Gostar de Ler Crônicas. Ática, SP, 1979/80, vol. 5, pág.12
6- Melo, José Marques de. A Opinião no Jornalismo Brasileiro. Vozes, RJ, 1985, pág.118.
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